Banco Central revisa crescimento do PIB para cima, mantém Selic em 15% e projeta inflação no centro da meta de 3% apenas em 2028. Entenda os impactos.
O Banco Central (BC) divulgou nesta quinta-feira seu mais recente Relatório de Política Monetária, trazendo uma leitura mais otimista sobre a atividade econômica brasileira, mas mantendo um tom firme no combate à inflação. A autarquia revisou para cima as projeções de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para 2025 e 2026, ao mesmo tempo em que indicou que a inflação só deve convergir plenamente para o centro da meta de 3% em 2028.
Na prática, o BC reforça uma mensagem clara ao mercado: a economia está mais resiliente do que se esperava, porém o controle inflacionário ainda exige uma política monetária restritiva. Tradução corporativa? Crescimento sim, mas sem afrouxar o cinto dos juros tão cedo.
Inflação segue acima da meta no horizonte relevante
De acordo com o relatório, a inflação projetada para o terceiro trimestre de 2027 está em 3,2%, acima do centro da meta de 3%. Esse período é considerado estratégico, pois será o horizonte relevante de política monetária nas decisões sobre a taxa Selic que começam a ser tomadas no início de 2026.
O Banco Central reiterou seu compromisso com a meta contínua de inflação, destacando que todas as decisões de política monetária são calibradas para garantir que o índice convirja para o alvo ao longo do horizonte relevante.
Apesar de reconhecer uma desaceleração recente, a autoridade monetária pontuou que tanto a inflação corrente quanto as expectativas inflacionárias ainda permanecem acima da meta, o que limita movimentos mais rápidos de flexibilização dos juros.
Hiato do produto ainda pressiona os preços
Um dos fatores que impediram uma revisão mais agressiva para baixo das projeções de inflação foi a avaliação do hiato do produto, indicador que mede a diferença entre o nível de atividade econômica e a capacidade produtiva do país.
Segundo o BC, o hiato do produto segue em território positivo, sinalizando uma economia operando acima do seu potencial. Esse cenário gera pressões inflacionárias adicionais, especialmente no setor de serviços.
A boa notícia é que o Banco Central projeta uma redução gradual desse hiato ao longo dos próximos trimestres, o que tende a aliviar parte das pressões sobre os preços no médio prazo. Ainda assim, o recado é direto: a inflação não está totalmente domada.
Selic permanece em 15% e cortes não têm data marcada
Neste contexto, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu manter a taxa Selic em 15% ao ano, reforçando um discurso de firme compromisso com a estabilidade de preços. O comunicado não trouxe qualquer sinalização concreta sobre quando pode começar um ciclo de cortes nos juros.
Essa postura mais conservadora afastou apostas do mercado de que a flexibilização monetária poderia ter início já em janeiro. O Banco Central deixou claro que qualquer mudança dependerá de uma convergência mais consistente da inflação e das expectativas inflacionárias para a meta.
Em bom português: não adianta forçar a barra. O BC prefere pecar pelo excesso de cautela do que correr o risco de perder o controle inflacionário.
Crescimento econômico surpreende positivamente
No campo da atividade econômica, o relatório trouxe revisões relevantes. A projeção de crescimento do PIB em 2025 foi elevada para 2,3%, acima dos 2,0% estimados anteriormente. Já para 2026, a previsão subiu de 1,5% para 1,6%.
Segundo o Banco Central, essa revisão reflete uma surpresa positiva no terceiro trimestre, além de uma reavaliação do desempenho esperado para o quarto trimestre, com base em indicadores econômicos mais recentes e revisões de séries históricas.
O cenário do BC fica alinhado — ainda que ligeiramente mais conservador — às projeções do mercado e do governo. O Ministério da Fazenda estima crescimento de 2,2% em 2025 e 2,4% em 2026, enquanto a pesquisa Focus aponta alta de 2,25% e 1,80%, respectivamente.
Crescimento moderado segue no radar para 2026
Apesar da melhora nas projeções, o Banco Central manteve a avaliação de que o crescimento em 2026 deverá ser moderado ao longo do ano. O cenário combina juros ainda elevados, desaceleração global e desafios fiscais domésticos.
Esse equilíbrio entre crescimento e controle inflacionário exige uma política monetária cirúrgica, capaz de evitar tanto um superaquecimento da economia quanto uma desaceleração excessiva.
Para empresas, investidores e consumidores, o recado é estratégico: o ambiente econômico melhora, mas o custo do dinheiro segue alto. Planejamento financeiro, gestão de risco e decisões bem fundamentadas continuam sendo palavras de ordem.
O que esperar daqui para frente
O novo relatório do Banco Central reforça uma visão de médio e longo prazo: o Brasil avança, mas ainda precisa consolidar a desinflação. A convergência da inflação para a meta só em 2028 indica que o ciclo de juros elevados pode ser mais longo do que parte do mercado gostaria.
Ao mesmo tempo, a revisão positiva do PIB mostra que a economia brasileira segue demonstrando resiliência, mesmo em um cenário de política monetária restritiva.
Em resumo executivo: crescimento mais forte, inflação resistente e juros altos por mais tempo. Quem entender esse jogo agora sai na frente depois.


